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Registro ABC: análise funcional do comportamento na prática

Como preencher o registro Antecedente-Comportamento-Consequência sem cair nos erros mais comuns e chegar a uma hipótese de função bem fundamentada.

4 min de leituraEquipe Okdocto

O que é

O registro ABC é a ferramenta mais básica e mais poderosa da avaliação funcional em Análise do Comportamento Aplicada (ABA). A sigla vem de Antecedent, Behavior, Consequence: para cada ocorrência de um comportamento de interesse, anota-se o que aconteceu imediatamente antes, o que a pessoa fez e o que aconteceu imediatamente depois.

A lógica por trás dele é a contingência de três termos descrita por Skinner: comportamentos são selecionados pelas consequências que produzem em determinados contextos. Se conseguirmos observar repetidamente quais antecedentes precedem um comportamento e quais consequências o seguem, podemos formular uma hipótese sobre a função desse comportamento, isto é, o que ele obtém ou evita para a pessoa. É essa hipótese que orienta o plano de intervenção. Sem ela, intervenções tendem a atacar a forma do comportamento e ignorar o motivo pelo qual ele persiste.

Quando usar

O registro ABC é indicado sempre que um comportamento precisa ser compreendido antes de ser modificado: comportamentos desafiadores (agressão, autolesão, fuga, birras), estereotipias que interferem na aprendizagem, recusa de tarefas, ou mesmo comportamentos que se deseja aumentar e que ocorrem em baixa frequência. Ele é uma avaliação funcional descritiva: observa-se o que acontece naturalmente, sem manipular variáveis. Isso o torna acessível a pais, professores e acompanhantes terapêuticos, com treino mínimo.

Como preencher

Cada linha do registro corresponde a uma ocorrência. Um bom registro contém:

  1. Data, hora e local: permitem identificar padrões de horário, ambiente e pessoas presentes.
  2. Antecedente: o que aconteceu nos segundos anteriores. Exemplos: "terapeuta apresentou a atividade de recorte", "irmão pegou o tablet", "sala ficou silenciosa após o fim da música".
  3. Comportamento: descrição observável e mensurável, sem interpretação. "Jogou o lápis no chão e gritou por cerca de 10 segundos" em vez de "ficou frustrado".
  4. Consequência: o que aconteceu nos segundos seguintes. "Terapeuta retirou a atividade", "mãe devolveu o tablet", "todos olharam e riram".
  5. Observações: condições que podem ter influenciado, como sono ruim, fome, medicação, mudança de rotina.

A regra de ouro é registrar o mais perto possível do momento. Registros feitos ao fim do dia perdem detalhes e ganham interpretação.

Erros comuns

Na prática, a maior parte dos registros ABC falha por poucos motivos recorrentes:

  • Descrever estados internos: "ficou ansioso", "estava com raiva", "queria atenção". Isso já é hipótese, não observação. Registre o que foi visto e ouvido.
  • Antecedente vago: "estava brincando" não informa o que mudou no ambiente. Procure a mudança: alguém chegou, uma demanda foi feita, um item foi retirado.
  • Consequência ausente ou genérica: "nada aconteceu" raramente é verdade. Alguém desviou o olhar, a demanda foi adiada, o barulho parou. Pergunte-se o que mudou.
  • Registrar só os episódios graves: comportamentos de baixa intensidade que ocorrem 30 vezes por dia dizem mais sobre função do que uma crise semanal.
  • Registro sem duração: poucos dias de observação em um único contexto não permitem ver padrões. Cinco a dez ocorrências em contextos variados costumam ser o mínimo.
  • Um registro para vários comportamentos: misturar gritar, bater e correr na mesma folha dilui a análise. Defina operacionalmente o comportamento-alvo antes de começar.

Da observação à hipótese de função

Com um conjunto de registros, o próximo passo é procurar regularidades. As funções mais frequentemente descritas na literatura são quatro:

  • Atenção social: o comportamento é seguido de olhares, fala, contato físico ou reação de outras pessoas.
  • Acesso a tangíveis: o comportamento é seguido da obtenção de um item ou atividade preferida.
  • Fuga ou esquiva: o comportamento é seguido da remoção, adiamento ou redução de uma demanda ou situação aversiva.
  • Estimulação sensorial (automática): o comportamento ocorre em contextos variados, inclusive sozinho, e sua consequência parece ser o próprio efeito sensorial.

Uma hipótese bem formulada tem a forma de uma frase: "Quando uma tarefa acadêmica é apresentada (antecedente), João joga o material no chão (comportamento) e a tarefa é retirada por alguns minutos (consequência); a função hipotetizada é fuga de demanda." Essa frase é testável. Se, ao manter a demanda de forma segura e ensinar um pedido de pausa, o comportamento diminuir, a hipótese se fortalece.

Vale lembrar que um mesmo comportamento pode ter funções diferentes em contextos diferentes, e que a análise descritiva gera hipóteses, não certezas. Quando o quadro é grave ou ambíguo, uma análise funcional experimental conduzida por analista do comportamento é o padrão-ouro.

No Okdocto

O Registro ABC está disponível como modelo pronto na biblioteca pública, na categoria ABA, com os campos de data, hora, contexto, antecedente, comportamento, consequência e observações, além de um campo para a hipótese de função ao fim de cada período de observação.

Ao instalar o modelo na sua instituição, {{PACIENTE_NOME}}, {{PROFISSIONAL_NOME}} e {{DATA_ATUAL}} são preenchidos automaticamente. Cada registro fica vinculado ao prontuário do atendido e pode ser consultado ao construir o PTI, ao redigir a evolução da sessão ou ao compartilhar orientações com a família e a escola.

Acesse o modelo em Registro ABC na biblioteca de modelos e conheça os demais documentos de ABA na biblioteca de documentos.


Observar bem é a parte mais difícil da análise do comportamento e também a mais generosa: é o momento em que o profissional deixa de perguntar "como faço isso parar" e passa a perguntar "o que esse comportamento está fazendo por essa pessoa".

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